Nalanda Aracaju

Entendimento Interreligioso por Santikaro

Tradução: Rafael Melo
Ediçõe Nalanda, 2010

Ajahn Buddhadasa foi uma das pessoas mais influentes no Buddhismo Thailandês do último século. Seu caráter progressivo e reformista, bem como seus profundos e avançados ensinamentos sobre o Dhamma, tiveram um impacto duradouro no Buddhismo Theravada. O ano de 2006 marcou o centenário de seu aniversário. Este é o segundo de uma série de artigos do “Turning Wheel” em sua homenagem.

Uma das mais notáveis influências foi sua amizade e interesse por outras religiões e seus esforços pela cooperação e entendimento interreligiosos. Por muitas décadas ele foi a principal voz buddhista na Thailândia a falar sobre o entendimento mútuo e a cooperação entre as religiões. Quase no fim de sua vida, um monge católico norte- americano que estava de visita para uma conferência em Bangkok, foi trazido até Suan Mokkh por um dos monges católicos thailandeses — cristãos visitando a Thailândia que queriam conhecer um buddhista reconhecido, eram geralmente levados à presença de Ajahn Buddhadasa.

Quando o Bispo Manat trouxe este católico norte-americano para a visita, eu era o monge estrangeiro residente em Suan Mokkh e responsável por receber os visitantes. Eu fiquei tocado por quão orgulhoso de Ajahn Buddhadasa o Bispo estava. Pensei que isto era muito encorajador, dado que em nosso mundo a religião é por vezes usada para separar e criar conflitos. E aqui estava um bispo católico expressando seu orgulho em ‘nosso’ monge buddhista, alguém que ele certamente tomava como a figura religiosa importante em nosso país. E ele não era o único bispo católico thailandês que cultivava este respeito por Ajahn Buddhadasa, o que nos revela um pouco da compreensão e receptividade da cultura thailandesa.

Em 1970, Ajahn Buddhadasa foi o primeiro orador buddhista a participar da palestra anual na principal universidade protestante da Thailândia. Ele ministrou três aulas, que foram publicadas no primeiro volume de “Cristianismo e Buddhismo” 1. Depois, ele ministrou uma série de palestras em Suan Mokkh, que foram posteriormente publicadas no livro “The Essence of Christianity as Far as Buddhists Should Know”. Ele enfatizou que os buddhistas têm muito a aprender dos ensinamentos cristãos sobre a prática de metta (bondade amorosa) e que metta requer mais do que apenas se sentar em uma almofada desejando bem a outros seres. Ele reconheceu que a tradição cristã tem desenvolvido uma história mais focada no serviço social do que as desorganizadas tradições buddhistas da Ásia.

Mesmo enquanto um jovem monge, Ajahn fez amizade com os seguidores de outras religiões. No início da década de 1930, em Bangkok, ele era próximo a Swami Satyanandaburi, um vedantista indiano que escreveu sobre as ciências sociais. Frequentemente conversavam sobre suas respectivas religiões, desenvolvimentos modernos, e o que eles compartilhavam em comum. Infelizmente o Swami faleceu em uma queda de avião em Burma (Myanmar) não muito depois deste período.

Um de seus estudantes mais proeminentes era Haji Prayoon, um muçulmano de Bangkok, que se tornou um visitante regular em Suan Mokkh depois de ler os artigos de Ajahn Buddhadasa. Haji Prayoon escreveu livros sobre cooperação religiosa e se referia a ele como um de seus professores. Perto do fim da vida de Buddhadasa, havia muçulmanos, cristãos, sikhs e hindus que o consideravam seu professor.

Ajahn Buddhadasa também encorajou os seguidores do Theravada a serem receptivos em relação a outras tradições buddhistas. O Dalai Lama realizou duas visitas à Thailândia antes que a oposição do governo chinês tornasse isso impossível. Ajahn Buddhadasa conheceu primeiramente o Dalai Lama em Bangkok em 1964. Poucos anos depois o Dalai Lama visitou Suan Mokkh, principalmente para discutir anapanasati (a observação vigilante por meio da respiração). O Dalai Lama sentia que os buddhistas tibetanos precisavam de mais prática para cultivar o samadhi e via o Buddhismo Theravada como o principal recurso a respeito de anapanasati, a meditação clássica do Buddhismo antigo. Durante esta visita discutiram a possibilidade de monges tibetanos virem a Suan Mokkh, e Ajanh Buddhadasa começou a planejar a construção de uma gompa tibetana em um dos locais do monastério. Infelizmente, devido à oposição chinesa, isso nunca veio a acontecer.

Ajahn também traduziu grandes partes do Lankavatara Sutra, um importante texto Mahayana, bem como dois clássicos textos Zen – “The Platform Sutra of Hui Neng” e “The Zen Teachings of Huang Po”. Assim, a primeira tradução amplamente conhecida de textos Zen na Thailândia foi feita por ele.

Religião ou Sasana

Em diálogos inter-religiosos é importante estar atento sobre a terminologia. Palavras em inglês podem carregar conotações cristãs que talvez não estejam em harmonia com outras tradições. A palavra pali para ‘Sasana’ é comumente traduzida em inglês pela palavra ‘religião’, apesar de que não são em verdade equivalentes. Em relação a ‘Sasana’, Ajahn Buddhadasa disse:

‘Sasana’ não é meramente ensinamento (seu sentido básico), mas se refere à atividade que traz sobrevivência (ou salvação) . Religião vem de raízes que significam tanto ‘observar’ como ‘ligar’. Combinando estes termos, resulta no sentido de ‘ação em acordo com o ensinamento divino que carrega o fruto de unificar a humanidade com o céu ou Deus’. Assim, religião tem a ver com ação. No Buddhismo, o Buddha chamou isto de Dhamma e Brahmacarya, e não Sasana, porque ele enfatizou a ação.

Posteriormente, Ajahn Buddhadasa veio falar sobre ‘Sasana universal’ ou ‘religião universal’. Depois de ter lido o Corão, a Bíblia, os Upanishads e outros grandes textos, e ter encontros com diferentes seguidores, ele veio a acreditar que todas as religiões realizam a mesma função básica de nos salvar do egoísmo e sofrimento.

Sasana é a ação que leva à salvação. É baseada nos instintos de medo e desejo de sobrevivência. A atividade ou luta básica é a mesma em todas as formas de vida, apenas diferindo em níveis nos quais ela opera. Por esta razão, todas as pessoas são a mesma pessoa, todas as religiões são a mesma única religião.

Em outras oportunidades, Buddhadasa focou no que ele chamava o coração de todas as religiões: não-egoísmo. Ele apontou, por exemplo, que as práticas e os ensinamentos cristãos existiam para levar ao não-egoísmo. Se uma pessoa realmente observar que Deus amou tanto o mundo que ofereceu seu único filho; e também observar o mandamento de ‘amar seu próximo como a si mesmo’, será impossível ser egoísta. Ele também descreveu a disciplina e o esforço do Islã como uma maneira de restringir e ultrapassar o egoísmo. No Buddhismo ele enfatizou como os ensinamentos de que todos os fenômenos são não-eu e de que não há nada que valha a pena chamar de ‘eu’ ou ‘meu’ levam à realização do não-egoísmo. Em todas estas diferentes tradições, ele observou o mesmo elemento comum de superação do egoísmo.

Ele expressou sua intenção em relação à religião em termos de três votos. Ele prometeu fazer tudo em seu poder:

1. Para ajudar os outros a perceberem o coração de sua própria religião.

2. Em trabalhar pelo entendimento mútuo entre as religiões.

3. Para cooperar em trazer o mundo para fora do domínio do materialismo.

As pessoas devem entender o centro de sua própria tradição religiosa de forma a ter uma compreensão e cooperação interreligiosa. Apenas quando conseguirmos falar a partir de nossas próprias experiências com nossas respectivas religiões é que haverá uma base para entender as religiões dos outros. (Claro, nós agora estamos diante de outro problema que Ajahn Buddhadasa não enfrentou, que é o de que muitas pessoas não possuem nenhuma tradição e estão fazendo uma miscelânea confusa do que quer que o mercado ofereça).

Ajahn Buddhadasa sentia que todas as religiões têm um inimigo em comum – o materialismo. Materialismo político, materialismo hedonista e materialismo espiritual, juntos, perpetuam o egoísmo. Eles dão justificativas para o egoísmo. O nacionalismo, em muitas de suas formas, também é uma justificação para o egocentrismo. O individualismo moderno é uma justificação para o egocentrismo. Ajahn Buddhadasa acreditava que Sasana, quando fiel ao seu objetivo, é a maneira mais efetiva de libertar a humanidade do egoísmo.

Ajahn Buddhadasa não era um ativista no sentido de organizar conferências de debates inter-religiosos; entretanto, pessoas que foram por ele influenciadas organizaram tais debates. Na Thailândia, um estudante laico do Buddhismo muito influenciado por Ajahn Buddhadasa é Sulak Sivaraksa, responsável por fundar muitas ONG ́s. Uma delas é chamada Comissão Thailandêsa para o Desenvolvimento Interreligioso. Este foi um dos grupos que trabalhou bastante para promover o entendimento interreligioso dentro da Thailândia. Sulak, eu, e outros estudantes de Ajahn Buddhadasa também estiveram envolvidos com o ‘Fórum de Desenvolvimento Cultural Asiático’ (Asian Cultural Forum on Development – ACFOD) que era muito direcionado neste sentido. Em Suan Mokkh, grupos cristãos começaram a participar dos retiros oferecidos. O professor de meditação católica, Padre Laurence Freeman e eu lideramos um retiro que uniu cristãos e buddhistas, tanto asiáticos como ocidentais.

Ajahn Buddhadasa não deixou de ser crítico a respeito das várias religiões. Do mesmo modo que ele criticava por vezes o Buddhismo, ele mostrava suas considerações a respeito das outras religiões também. Ele podia ser muito crítico a respeito do que era conhecido por ‘hindus engolindo o Buddhismo’. No Teatro Espiritual de Suan Mokkh, um prédio coberto onde, no exterior e no interior, há esculturas e pinturas expressando temas buddhistas, há uma figura de um sacerdote brahmana engolindo um monge buddhista. Por outro lado, ele apontou que a principal razão para que isso ocorresse era a inabilidade de alguns buddhistas, e especialmente professores e líderes, de serem claros a respeito do que o Buddhismo é, e do que não é. O Buddhismo na Índia se tornou muito envolvido em ritualismos, hierarquias e tantra, nenhuma destas coisas verdadeiras em relação ao ensinamento original do Buddha. Até pior, ele perdeu o rumo do caminho de libertação nesta vida através de uma supervalorização do moralismo do renascimento. Porque o Buddhismo não conseguiu manter-se em sua inspiração original, ele de muitas formas se tornou indistinguível do Hinduísmo.

Ele era crítico a respeito das tentativas cristãs de converter as pessoas. Uma das entradas em seu diário observou o seguinte sobre os missionários cristãos: ‘Se vocês comprarem nossos estúpidos, nós conseguiremos os seus inteligentes’. Quando uma religião se rebaixa tanto a ponto de usar força ou propina para ganhar adeptos, ela perde exatamente aqueles capazes de perceber tal manipulação.

Ele era crítico quanto ao Buddhismo e outras tradições quando sentia que elas estavam se comportando de maneira superficial, como dando valor demasiado aos rituais ou a professores individuais. Em seu entendimento, até mesmo o fundador, Buddha, nunca deveria ser colocado acima do Dharma.


Ajahn Buddhadasa enumerou sete mal-entendidos a respeito de ‘Sasana’ ou ‘religião’:

1. A atitude de que a religião não é necessária no mundo moderno. Que a humanidade de alguma maneira avançou além desta necessidade;

2. A atitude de que fenômenos não-religiosos, como poderes psíquicos e exuberância emocional, fazem parte da religião;

3. A atitude que nega a verdadeira religiosidade. Por exemplo, dizer que a liberdade em relação à ganância, ódio e ilusão não é a base da libertação ou que essas impurezas de alguma maneira nos fazem mais fortes;

4. A atitude de que a religião é ‘ganhar algo’, como segurança material, mérito e as respostas aos nossos pedidos;

5. A atitude de que a religião é a inimiga do desenvolvimento sócio-econômico.

6. A atitude de que a religião provê uma vantagem competitiva em termos mundanos, por exemplo, em países onde maiorias religiosas usam a religião para manipular e monopolizar recursos e poder;

7. A final e mais perigosa atitude, a de que outras religiões estão em oposição à nossa.

Ajahn Buddhadasa sentia que enquanto as pessoas mantivessem tais atitudes, especialmente a última, a religião nunca seria forte o suficiente para fazer o seu trabalho: nos trazer salvação e paz. A luta, competição e discussão que surgem destas atitudes tornavam a paz mundial impossível. Professores como Ajahn Buddhadasa, com sua amizade valente aos outros e esforço incansável em relação ao entendimento da grande variedade de religiões no mundo são verdadeiros fazedores da paz a serem estudados e imitados. Que possamos tomá-lo como nossa inspiração para trabalhar pela cooperação e entendimento para o benefício de todos.

1 O livro está esgotado e uma revisão deste livro está sendo preparada.